Ela morreu. Tinha de morrer uma hora, Ainda mais naquela época

Ela morreu. Tinha de morrer uma hora, Ainda mais naquela época
Onde raro os que chegavam a velhice.

Ela morreu. Tinha de morrer


Trabalhei no Cabaré por mais de vinte anos
Até a época em que já não dava mais,
Eu não tinha mais idade
E principalmente paciência
Para atender os clientes na Prática.


Mas eu era Boa nas finanças,
Fui uma das poucas afortunadas
A ter algum acesso aos estudos.
Primeiramente achei estranho
Pois era Ela mesma junto com
Rosa Vermelha que faziam a repartição
Dos lucros.


Mas Padilha estava diferente.
Ela sempre foi altiva, deslumbrante,
E não era absurdamente atraente
Só por ser uma mulher bonita,
Não, o jeito dela era o que a fazia
Tão especial, era como uma rainha
Sempre de queixo erguido.


Mas ultimamente estava retraida,
Distraída.


Tudo começou meses antes quando
Mulambo estava no pequeno palco
Ensaiando antes do cabaré abrir.


Ela começou a cantar a plenos pulmões
“Dói, dói dói dói dói, um amor faz sofrer, dois amor faz chorar…”


Padilha estava no salão e a corrigiu
“Sua louca, pare de mudar a musica, é “desamor faz sofrer, dor de amor faz chorar”.


Mulambo deu de ombros


“Acho que do meu jeito é melhor, vai cair na boca do povo você vai ver.”
As duas começaram a rir
Mas no meio da risada Padilha teve
Uma crise de tosse que a fez perder o fôlego.


Após isso as crises se tornaram frequentes.
Uma noite todas as moças do Cabaré
Desceram para o salão afim de trabalhar,
Eu já não atendia mais os homens
Mas ficava no bar, no caixa.


Foi então que o Doutor Chegou,
Doutor Manuel era o Medico da cidade.
Foi até o bar e sorriu para mim,
Achei que ele queria ou bebida ou uma das moças
Mas se debruçou sobre o balcão


E em voz baixa falou


“Eu vim falar com Dona Padilha, ela mandou me chamar.”
Sorri para ele sem entender muito bem
“Doutor a Dona Padilha já não atende mais, se é que me entende, mas escolha uma das nossas moças, são todas lindíssimas.”


Ele me encarou e então pousou
Sobre o balcão a sua maleta preta de couro,
E um Medico somente levava sua maleta
Quando ia fazer consulta.


Meu sorriso vacilou quando compreendi,
Ele estava de serviço.


Olhei para a porta do Cabaré e
Lá estava Miguelito, o rapaz que
Guiava a carruagem de Padilha,
E ele acenou para mim indicando
Que ele é quem havia chamado o Doutor.


Levei o Medico para cima até o quarto de Padilha
E Deus me perdoe por ser futriqueira
Mas entrei com ele.
Padilha estava lá,
Mas não era ela mesma,
Estava com círculos roxos em torno dos olhos
E os cabelos oleosos,
Deitada na cama em uma camisola Branca
Ela parecia outra.


O médico a pôs sentada,
Com examinou a respiração,
Ela tossiu algumas vezes,
Depois a deitou e enfiou as mãos por de baixo
Da camisola, foi fazendo pressão


Em alguns pontos


Até que ela deu um grito quando
Ele tocou nas costelas.


“Hum… Eu acho que é um tumor no pulmão, ou um coágulo, não sei dizer exatamente mas de toda forma sendo no pulmão é grave.”


Ela assentiu desanimada
“E como eu trato?

Como eu me curo?”


O médico a encarou por um longo momento
Em silêncio


“Bem… Aqui é só uma colonia, não ha opção de tratamento por estas bandas. Brasil não tem acesso a grandes médicos. Para tratar teria de ir para a Inglaterra ou para a França. Mas eu não acredito que sobreviveria a oitenta dias em um navio.”


“Então o senhor está dizendo que não sabe o que tenho e que é para eu simplesmente ficar deitada esperando a morte?”


“Receio que sim.”


O médico de foi, Padilha ficou lá na cama
Olhando para o teto.


Desci com ele e voltei para o bar
Mas não comentei nada com ninguém.
Os dias passaram, Rosa Vermelha e Mulambo
Obviamente sabiam da condição
E ficavam com ela todo o tempo.


Mas isso começou a cansar Padilha,
Ela odiava ser tratada como uma doente.
Ela sempre foi a líder, a pessoa forte e inabalável
E agora estava sendo tratada como uma
Boneca de vidro,
Ninguém a deixava sozinha,
Tiraram dela o fumo e o álcool
E nem o espartilho lhe permitiam usar.


Mas isso a aborreceu muito.


Não importava se estava morrendo,
Ela queria viver do jeito que sempre viveu.
Foi então que uma noite ela sumiu,
Simplesmente sumiu do quarto.


Quando Rosa Vermelha soube
Mandou chamar Miguelito para saber
Onde a tinha levado
Mas ele informou que a carruagem
Estava no conserto
E que portanto não tinha como
Levar Padilha a canto algum.


Então onde ela estava?

Onde?


Mulambo suspirou fundo
E disse no meio de todas
“Eu sei onde. Vamos lá.”


Seguimos a pé para a cidade,
Ja estava anoitecendo
Então eu, Mulambo e Rosa
Que eramos a únicas realmente cientes
Caminhamos juntas na Estrada de terra,
Chegamos na cidade e Mulambo indicou
O cemitério da Igreja.


Entramos todas juntas
E ela estava lá, Linda, bem maquiada
Bebendo licor de menta direto de uma garrafa
E fumando sua cigarrilha favorita.


Estava em pé diante de um tumulo de marmore negro,
Ao me aproximar li o nome “Antenor” na lápide.
Rosa Vermelha se admirou
“É o tumulo dele, do Tranca Ruas…”


E sim, era o túmulo dele.


Ele e Padilha tiveram uma… História
Se é que assim posso dizer.


Ah os homens em sua maioria são uns porcos,
Mas Tranca Ruas era alguém que valhia a pena sabe,
Então todas nós entedemos
Ela ter ido lá ver a lembrança dele.


Fomos até Padilha, ela estava bêbada
E ria para o túmulo
Como se visse alguém lá.


Quando nos viu arregalou os olhos
Tentou dizer algo mas cambaleou e caiu ajoelhada.
Nós corremos para acudir,
Ela estava ardendo em febre
Quando levantou do chão deu alguns passos bambos
Mas logo teve de ser amparada por nós.


Ela reclamou dizendo que tinha ido até lá sozinha
E que estava bem,
Mas era nítido que estava muito mal.
Quando chegamos a entrada do cemitério
Ela ja não conseguia andar.


Pedimos ajuda a varias pessoas da cidade,
Ao vendedor de quitutes, aos homens do café,
Até aos transeuntes
Mas ninguém ajudou,
Ninguém queria ser visto com as prostitutas.
Sim eles iam ao cabaré para desfrutar
Mas quando nos viam na rua
Fingiam que não conheciam.


Então aquela mulher estranha se aproximou,
Ela estava bebendo cerveja e nos observando
Mas logo veio Trazendo um lençol Branco,
Era a tal Maria Farrapo, uma com fama de maluca
Mas que veio nos ajudar sem pensar duas vezes.
Não sei de que varal ela roubou aquele lençol
Mas nós deitamos Padilha nele
E cada uma pegou em uma ponta,
Suspendemos e começamos a carregar ela pela rua.
Padilha delirava balbuciando coisas sem nexo
E nós iamos em passo largo
Levando ela para casa.


Então o Primero relampago varou o céu
E em instantes a chuva deitou sobre nós.
Os vestidos daquela época eram pesados,
Pelo menos dez quilos de tecido
E agora molhados pesavam o triplo.


Era difícil carregar Padilha encharcada, ainda
Conseguir andar com nossas roupas molhadas
E pisar no barro lamacento da rua.


Estava muito pesado
Mas nós não desistimos,
Mesmo com as mãos já doendo e formigando
Agarradas ao pano.


Padilha respirava devagar
Eu prestava atenção naquele som de respiração.
Nesta hora uma carroça passou do nosso lado
Indo pela esttada
Nós gritamos por ajuda
Mas ignoraram nossos gritos.


Então Mulambo começou a falar


“Vamos lá, estamos chegando, estamos quase lá, não desanimem!”
Nisso Padilha que até agora estava avulsa
A toda situação de repente falou
“Parem, parem com isso… Me deixem aqui, eu… quero morrer, já é a minha hora…”


Rosa Vermelha retrucou


“Não diga besteiras, vamos te levar pra casa e vai ficar tudo bem, não desista agora!”


Mas Padilha apenas suspirou e respondeu
“Eu lutei a vida toda, nunca tive um dia sem que tivesse que lutar por mim e pelas outras.

Eu estou cansada Rosa, muito cansada. Escutem, escutem isso agora, isso não é um fim, nós vamos nos ver de novo na hora certa, mas agora meu momento aqui acabou. Fiquem juntas, cuidem da casa… e… não se esqueçam… de mim.”


Nisso vi algo que nunca tinha visto antes
E nunca mais tornei a ver,
A Forte e dura Rosa Vermelha
Chorando silenciosamente, não fazia som
Mas seu queixo tremia
E as lagrimas se juntavan a chuva
Lavando o seu rosto
Mas ela não soltou a barra do lençol.
Para Rosa chorar era porque algo realmente
Horrível tinha acontecido
E então percebi que o som da respiração
De Padilha tinha parado.
Olhei para ela ali deitada,
Os olhos fechados, pálida, imóvel… Morta.


As lágrimas invadiram meus olhos tambem,
Não pude resistir.


Padilha foi a pessoa que me estendeu a mão
Nos momentos que eu precisei,
Era dura sim mas sempre a pessoa
Na qual todas nós tínhamos eterna gratidão e confiança.
Me lembrei dela rindo,
Dançando com os rapazes no salão,
Enfrentando perigosos
E sobrevivendo a todos.
Mas infelizmente ninguém é vive para sempre
E ela se foi.


Já era possível ver ao longe
As luzes do Cabaré
Quando nossa força acabou
E todas caímos ao chão
Sob a chuva torrencial
Enchendo nossas saias de lama.


Mulambo segurou a cabeça de Padilha
Como se quisesse proteger do impacto,
Então entre lágrimas falou
“Sua desgraçada, sempre foi minha rival, sempre me enchendo a paciência pondo defeito em tudo…

Mas o que vou fazer sem você?

Eu… Eu não consigo sozinha…

Você não pode me deixar aqui sozinha…

Você não é Bruxa?

Sempre disse que era… Então volte a vida, volte…”
Mas ela não voltou.


Não existe feitiço para reviver os mortos,
Tudo o que é vivo…

Morre.


Ficamos ali no chão tomando fôlego
Ate que ouvimos o som de passos estalando na lama
E logo elas chegaram, as outras moças do Cabaré
Que tinham nos visto da varanda e vieram correndo ajudar.
Ninguém disse nada, nem uma palavra.


Eram muitas, e cada uma pegou em uma
Parte da barra do lençol e levantaram Padilha nele,
Rosa Vermelha, Mulambo, Farrapo e eu
Ficamos em pé e mesmo exaustas
Fizemos questão de também segurar
Na Barra do lençol,
Era um último gesto,
Uma última homenagem a ela.
Um passo de cada vez,
Pé ante pé, nós a carregamos até o fim.
Levamos para dentro da casa
Onde ela foi limpa e vestida com seu melhor vestido.
No dia seguinte sepultamos ela
Em um cortejo com muitas mais de nós
Vindas de todos os cabarés da região.


Enterramos sim
Mas não só ela,
Naquela cova foi enterrado junto
Um pedaço de cada uma de nós.
Padilha levou junto nosso coração.
Depois que ela se foi
Muitos contaram sua história, disseram
Coisas românticas e heroicas,
E sim, ela esteve em situações românticas
E de bravura mas
Os que falam dela nunca falam da dor.


E foi a dor que fez de Maria Padilha
Quem ela foi
E quem ela é.
Todas nós do Cabaré
Tivemos medo de esquecer dela,
De um dia buscar na mente e não achar
Mais aqueles olhos verdes.


Então juntamos dinheiro,
Cada uma deu um bocado
E encomendamos uma pintura
De um rapazote que fazia as artes na cidade.
Demorou três meses mas finalmente chegou,
E no grande quadro que penduramos
No salão do Cabaré
Estava lá ela retratada
Da forma que ela realmente era,
A mulher linda com uma coroa adornando a cabeça
Maria Padilha, a nossa Rainha.


Um dia eu segui meu rumo,
Fiz minhas malas, me despedi
De minhas companheiras
E quando desci a escada rumo a saída
Olhei para aquela pintura
E dela também me despedi.


Obrigada Maria Padilha, Obrigada por tudo.
.
.
.
.
.
“Contos das muitas Marias”, Felipe Caprini.

Facebook Comments