Chico Xavier O Dia Que Viu Jesus Cristo!

Ao longo dos anos em que ia a Uberaba conheci muita gente.

Chico Xavier O Dia Que Viu Jesus Cristo!

Algumas o tempo vai apagando lentamente, mas jamais terá força suficiente para apagar de minhas lembranças a figura encantadora que vocês vão passar a conhecer.

Numa daquelas madrugadas, quando as reuniões do Grupo Espírita da Prece se estendiam até ao amanhecer, vi-o pela primeira vez.

Naquela filas quase intermináveis, que se formavam para a despedida ou para uma última palavrinha ainda que rápida com Chico, ele chamou-me a atenção pela alegria com que esperava a sua vez.

Vinha com passos cansados, o andar trôpego, a fisionomia abatida, mas seus olhos brilhavam à medida que se aproximava do médium.

Dia Que Viu Jesus Cristo

Trajes pobres, descalço, pés rachados, indicando que raramente teriam conhecido um par de sapatos.

Quando se aproximava, seu corpo magro, sofrido e mal alimentado exalava um odor desagradável.

Quando se aproximava, tínhamos pressa em dar-lhe algum trocado para que ele fosse comprar pipoca, doce ou um refrigerante, a fim de que saísse logo de perto da gente.

Jorge morava com o irmão e a cunhada num bairro muito pobre

– uma favela, quase um cortiço.

Algumas telhas, pedaços de tábuas, de plásticos, folhas de lata emolduravam o seu pequeno espaço.

Muitas vezes o vi com marcas no rosto e, ainda hoje, fico pensando se aquela ferida permanente em seu lábio inferior não seria resultante de constantes pancadas.

Como é que o Chico pode perder tanto tempo com ele, quando tantas pessoas viajaram milhares de quilômetros e mal pegaram sua mão?!?

Assim, por alguns anos, habituei-me a ver aquele estranho personagem que, aos poucos, me foi cativando.

Às vezes penso que o Sinhô Jesus tá me espiando por detrás de uma nuvem!”

Depois o visitante falava da briga dos gatos, da goteira que molhou a cama, do passarinho que estava fazendo ninho no seu telhado.

Eu chegava até a me virar na cadeira, perguntando a mim mesmo:

“Onde é que o Chico arruma tanta paciência?”

Jorge colocava, então, o colarinho da camisa para fora, abotoava o único botão de seu surrado paletó, colocava as mãos para trás, à semelhança de uma criança quando vai declamar na escola, ou perante uma autoridade, olhava para ver se o estavam observando e sapecava, inflado de orgulho:

Um sorriso solto e alegre, mas ainda assim doído, pois a parte inferior de seus grossos lábios se dilatava, fazendo sangrar a ferida.

Depois colocava o dinheiro dentro de uma capanga, onde já havia guardado as pipocas, os doces, dando um nó na alça do pano.

Falava quase dentro do nariz do Chico e eu nunca o vi ter aquele recuo instintivo como eu tivera tantas vezes.

Beijava-lhe a mão, o qual também beijava a mão e a face dele,

ao que ele retribuía, beijando os dois lados da face do Chico,

onde ficavam manchas de sangue deixadas pela ferida aberta em seus lábios.

Eu, muitas vezes, ao chegar à casa dele, molhava um pano e limpava

o que passamos a chamar carinhosamente de

“o beijo do Jorge…”

Não saberia dizer quantas vezes pensei em levar um presente àquele pobre irmão

– uma camisa…

Contou-me o Chico que foi este nosso irmão de pele escura,

cabelos enrolados, ferida nos lábios, pés rachados,

mau cheiro e mau hálito que, ao desencarnar,

Jesus Cristo veio pessoalmente buscar.

Entrou naquele quarto de terra batida, retirou Jorge do corpo magro e sofrido,

envolto em trapos imundos, aconchegou-o de encontro ao peito e voou

com ele para o espaço, como se carregasse o mais querido dos seus irmãos!

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