Pai Nosso Por Nicete Bruno

1. E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos.

2. E ele lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu.

3. Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano;

4. E perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve, e não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal.

 A oração ensinada por Jesus, que convencionamos chamar de “Pai Nosso”, está nos Evangelhos de Mateus e de Lucas. Em Mateus nós encontramos sete petições, é a forma mais completa a que nós estamos habituados. Em Lucas, originalmente, são apenas cinco petições. Pela importância do estudo desta oração e dos ensinamentos contidos nela, vamos analisar a versão de Mateus.

Em Mateus a oração está dentro do sermão da montanha, ou sermão do monte, que é a parte do Evangelho de Mateus em que ele reuniu a maior parte do ensinamento moral de Jesus. Mateus nos conta que Jesus nos alertou para que não oremos para chamar a atenção, e que não adianta repetir muitas vezes as mesmas palavras e frases, pois não é por falarmos muito ou por gritarmos que nós seremos ouvidos por Deus.

“Pai nosso que estás nos céus”.

É diretamente a Deus que estamos nos dirigindo. É uma invocação a Deus que será seguida de sete petições a Deus.

Emmanuel nos ensina que o supremo doador da vida deve constituir, para nós todos, o princípio e a finalidade de nossas tarefas.

Jesus não nos dá, em momento algum, explicações filosóficas a respeito da natureza de Deus. A primeira pergunta de O Livro dos Espíritos é: – Que é Deus? – E a resposta dos espíritos é objetiva: – Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Logo adiante eles alertam que não podemos duvidar da existência de Deus e que isso é o essencial, não podemos ir além disso. Não temos condições de ir além disso.

E qual é o modo como Jesus se refere a Deus? Como Pai. Jesus nos apresenta o Creador como o Pai de todos nós. Um Pai amoroso e bom, que tudo provê aos seus filhos, que sempre nos oferece novas oportunidades para o nosso aprendizado.

É ao Pai que nos dirigimos na oração. E este Pai é nosso, não é somente meu ou seu, é Pai de todos nós; consequentemente, somos irmãos espirituais. Temos a mesma paternidade divina.

“Que estás nos céus”.

No texto original grego a palavra traduzida como céus é ouranós – que não é um lugar definido, mas é a atmosfera que envolve a Terra. Representa o espaço infinito, pois Deus está em toda parte.

“Santificado seja o teu nome”.

O sentido original da palavra “santo” é todo, inteiro, universal, integral. Na Bíblia, santo é tudo o que é dedicado a Deus.

Nome, na Bíblia, é a manifestação externa da realidade interna. É a manifestação da essência em forma de existência. É assim com os nomes de cidades e de pessoas.

Jesus, por exemplo, quer dizer “Deus salva”. O nome Jesus é a manifestação externa da sua realidade interna de salvador enviado de Deus.

O nome Jesus é a manifestação da essência do Cristo em Jesus em forma de existência do homem Jesus.

O nome de Deus, então, é a manifestação de Deus, é a essência de Deus manifestada em forma de existência. Tudo o que existe é manifestação da existência de Deus. Foi Deus quem creou tudo, então tudo é sua manifestação.

Desejar que o nome de Deus seja santificado, então, é desejar a manifestação de Deus, que é toda a sua creação, reconhecida por todos como prova da grandeza de Deus. É desejar que a creação de Deus seja universalmente aceita, é desejar que toda a humanidade, que é o ápice da creação de Deus, de acordo com o nosso entendimento, reconheça entre seus próprios membros individualidades da integralidade da creação.

O nome de Deus é a sua manifestação. E a manifestação de Deus mais apta a reconhecer a sua própria origem divina é justamente a humanidade, são os espíritos que têm dentro de si a partícula divina. Todos nós somos filhos de Deus, creados à sua imagem e semelhança, portanto, perfectíveis. Temos a fagulha divina dentro de nós, que é o nosso Cristo interno.

Encontramos as leis de Deus em nossa consciência, conforme nos lembra a questão 621 de O Livro dos Espíritos. E conforme vamos ouvindo a voz da nossa consciência, vamos nos dando conta da veracidade do ensinamento maior de Jesus que é “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”.

E esse ensinamento de Jesus também está contido nesta oração quando dizemos:

“Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome”.  Em primeiro lugar, acima de tudo, o Pai. Em segundo, e como conseqüência natural, o nosso próximo, que é a manifestação de Deus, as suas creaturas – os espíritos encarnados e desencarnados.

Que nós, como manifestações de Deus que somos, sejamos santificados, que nos santifiquemos, ou seja, que nos voltemos e nos dediquemos totalmente a Deus.

“Venha o teu reino”.

Jesus disse que o reino de Deus está dentro de nós (Lucas 17:21). Se nós somos filhos de Deus, creados à imagem e semelhança de Deus, é evidente que o reino de Deus está dentro de nós, que o reino de Deus já existe, e que cabe a nós nos desenvolvermos a ponto de poder vivê-lo.

O reino de Deus é o nosso próximo estágio evolutivo, e para conquistá-lo devemos conquistar a nós mesmos.

Nossa individualidade divina deve se sobrepor e transformar a nossa personalidade egoística.

O reino de Deus é o domínio do espírito sobre a matéria. O apego às coisas materiais, a escravidão aos desejos, sensações e emoções materiais é o adversário interno que temos que vencer. O orgulho, o egoísmo e a vaidade, que são o que Jesus chamou de satanás, que quer dizer “adversário”.

“Venha o teu reino”, ou, como também é traduzido, “venha a nós o vosso reino” é a segunda petição que fazemos a Deus nesta oração. Isso deve acontecer para que nós possamos realizar a primeira petição, que é ver em cada creatura, em cada espírito, um irmão, um filho de Deus como nós, uma manifestação individualizada de Deus.

Quando alcançarmos o reino de Deus o nome de Deus será santificado, ou seja, compreenderemos e aceitaremos a presença de Deus em toda a creação.

“Seja feita a tua vontade, assim na terra com no céu”.

Seja feita a vontade de Deus, não a nossa vontade. Se a nossa vontade for de acordo com as leis de Deus estaremos trilhando o caminho reto que leva a Deus e a nossa vontade será atendida, pois então a nossa vontade será a livre manifestação de Deus através de nós. Nossos pensamentos, palavras e ações devem estar de acordo com as Leis de Deus.

Que a vontade de Deus se torne realidade física assim como ela é realidade em nossos pensamentos.

Pela Lei de causa e efeito todos os nossos pensamentos, que são causas, produzem palavras e ações, que são efeitos. Nossos pensamentos devem estar sempre voltados a Deus para que a vontade de Deus se manifeste em nossa realidade física.

“Assim na terra como no céu”. Assim no físico como é na mente.

A vontade de Deus é o progresso. O nosso destino é a felicidade. Não temos escolha sobre se seremos felizes ou não. Todos seremos felizes. Nossa decisão é apenas sobre a questão do tempo que levaremos para sermos felizes.

O livre-arbítrio, em última análise, nada mais é do que o recurso de que dispomos para definir o tempo que investiremos até conquistarmos a felicidade.

Não temos escolha real entre fazer ou não fazer a vontade de Deus. Todos nós teremos que fazer a vontade de Deus, mais cedo ou mais tarde. Nossa escolha é justamente a respeito da maneira de fazermos a vontade de Deus.

Se tivermos fé, que quer dizer fidelidade, lealdade e obediência, estaremos fazendo a vontade de Deus espontaneamente, de boa vontade e com prazer.

Se teimarmos em considerar o mundo físico como uma colônia de férias, em que nos esforçamos para esquecer a nossa realidade e ter o máximo possível de prazer material, esquecendo-nos das coisas do espírito, levaremos mais tempo para fazermos a vontade de Deus, e seremos avisados, de tempos em tempos, através do mecanismo da dor, de que estamos nos desviando do caminho reto das Leis de Deus.

A dor é isso: um mecanismo que nos avisa quando estamos nos desviando do caminho reto das leis de Deus. Enquanto cultivarmos o orgulho e o egoísmo estaremos sujeitos à dor.

Nesta terceira petição estamos pedindo, portanto, que a nossa vontade seja o mais próximo possível da vontade de Deus, que a nossa vontade venha mesmo a coincidir com a vontade de Deus.

A vontade de Deus é sempre boa. Quando acontecem coisas que não são boas, devemos buscar as suas causas em nós mesmos, pois nós colhemos o que plantamos.

E não nos esqueçamos de que as aparentes dificuldades são os nossos mais eficazes meios de aprendizado. Estamos aqui para aprender. Revestimos um corpo transitório, mas somos espíritos imortais. Animamos uma personalidade transitória, mas temos o Cristo dentro de nós.

Seja feita a vontade de Deus na nossa personalidade assim como é no nosso Cristo interno.

“O pão nosso de cada dia nos dá hoje”.

Aqui nós encontramos um grave erro de tradução. A maior parte das traduções traz “o pão nosso de cada dia” ou “o pão nosso cotidiano”.

A palavra grega que é traduzida como “de cada dia” ou “cotidiano” é epiousion. Esta palavra só existe aqui.

Na Vulgata de São Jerônimo, que foi a tradução “autorizada” da Bíblia para o latim, na virada do século quarto para o século quinto, A palavra grega epiousion foi traduzida como sobresubstantiale em Mateus e como quotidianum em Lucas.

O que leva alguém a traduzir uma mesma palavra, no mesmo contexto, para expressões tão diferentes, é um mistério. Na verdade, sabemos que Jerônimo fez a sua tradução às pressas, o que acarretou este e outros descuidos. Se houvesse má intenção por parte de Jerônimo, certamente a tradução equivocada estaria nos dois Evangelhos.

Champlim informa que na versão siríaca antiga a tradução é “o pão nosso duradouro”. Outras versões trazem “o pão nosso de amanhã”.

Esta palavra epiousion é formada por epi que quer dizer “sobre”, “acima”, “além de”, e ousia, que quer dizer “substância”.

No Evangelho de João, no episódio chamado “o pão da vida”, Jesus nos diz que “o pão de Deus é aquele que desce dos céus e dá vida ao mundo” (João 6:33). E diz mais de uma vez: “Eu sou o pão da vida” (João 6: 35:48).

É o Cristo que está falando. Jesus se cristificou totalmente, é pura manifestação de Deus. E é isto que ele está falando: O pão de Deus que desce do céu e dá vida ao mundo é o Cristo. É o fenômeno Vida, manifestação de Deus que está em todas as coisas e que nós temos o poder de desenvolvermos dentro de nós conforme vamos nos conscientizando.

Epiousion é o pão sobressubstancial, ou “o pão além da substância”, o alimento do espírito.

Não é pão material que Jesus nos ensina a pedir. Logo adiante, neste mesmo capítulo de Mateus, Jesus diz: “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer. Não é a vida mais que o mantimento?” (Mateus 6:25). Jesus não iria nos ensinar a pedir pão a Deus para um minuto depois desdizer o que disse e aconselhar que não nos preocupemos com o que comeremos.

Deus sabe o que precisamos. Esta oração que Jesus nos ensina é um método de contatar com Deus, de entrar dentro de nós mesmos e nos harmonizarmos com Deus. Não é uma fórmula para pedir coisas materiais. Nós veremos que para coisas mais imediatas Jesus nos deixa outro precioso ensinamento que iremos analisar logo a seguir.

Pedimos a Deus, então, o alimento espiritual. O alimento espiritual de que necessitamos para conseguirmos entrar em harmonia com a vontade de Deus (terceira petição), conquistar o reino de Deus (segunda petição), e ver em todas as criaturas a manifestação de Deus Pai (primeira petição).

Temos três petições iniciais puramente espirituais, uma petição intermediária, que é o alimento do espírito, e três petições finais que dizem respeito ao nosso esforço de evolução no mundo material.

Tratemos delas agora.

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.

A necessidade do perdão é tão urgente e imprescindível que Jesus, imediatamente após o ensino da oração, repete esta recomendação: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai não vos perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6:14-15).

Já vimos que quem nos julga é a nossa própria consciência. E o parâmetro que a nossa consciência segue para nos julgar é o parâmetro que nós utilizamos para julgar o outro.

Por isso Jesus também disse: “Não julgueis, para não serdes julgados, porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos medirão a vós” (Mateus 7:1-2).

Jesus não repetiria esta recomendação com tanta ênfase se ela não fosse decisiva para a nossa libertação. Aliás, este é o sentido da palavra perdão: Libertação.

Para nos libertarmos de nossos próprios erros precisamos reparar os nossos erros. E para perdoarmos os erros dos outros temos que ter consciência de que enquanto ficarmos ligados aos erros cometidos por eles nós iremos sofrer as consequências destes erros.

Mesmo que os efeitos diretos destes erros já tenham passado há muito tempo, ou, ainda, mesmo que estes erros não tenham surtido efeitos práticos contra nós, enquanto nós estivermos ligados a eles nós sofreremos as consequências deles.

Perdoar é libertar-se-se. As Leis de Deus se manifestam através da nossa consciência. Para que a nossa consciência nos perdoe nós precisamos perdoar. Por isso pedimos a Deus que ele nos perdoe assim como nós perdoamos.

Isso acontece automaticamente, não precisamos pedir a Deus que isso aconteça. Esta oração de Jesus é um resumo perfeito de tudo o que precisamos nos conscientizar em nosso atual estágio evolutivo. Essa conscientização tem que ser permanente.

O próprio Jesus se recolhia muitas vezes para orar. Se Jesus que é Jesus fazia isso, nós, imperfeitos que somos, temos que nos lembrar a toda hora de nossos propósitos espirituais.

“E não nos conduzas à tentação”.

Quase todas as traduções que consultamos trazem “não nos induzas em tentação” ou “não nos introduzas em tentação” ou “não nos conduzas em tentação”.

Rohden defende ardorosamente que há erro de escolha do verbo por parte de quem escreveu o Evangelho por não admitir que Deus induza alguém em tentação ou provação.

Lembramos que Jesus foi tentado no deserto, mas essa tentação tem o sentido de provação.

Todos nós somos submetidos a provas, e neste sentido seria estranho pedir a Deus que não nos submeta a provas, pois sabemos que precisamos passar por provas para progredirmos.

Estamos num planeta de provas. Desde a infância somos submetidos a provas na escola, precisamos superar provas para passarmos de nível, e assim em todos os aspectos de nossas vidas, durante toda a nossa vida, como encarnados ou desencarnados.

O Haroldo Dutra Dias, se referindo à expressão “não nos introduzas” diz que se trata de um semitismo, uma característica da linguagem do povo de Jesus que, embora se utilize de um verbo com a aparência de causa, o seu sentido é de permissão – não permita que eu entre, que eu me torne vítima, que eu esteja em poder da tentação.

Essa interpretação do Haroldo é sustentada pela Bíblia de Jerusalém. Fiquemos, então, com eles: “não nos deixeis cair em tentação”.

Não nos deixeis cair quando estivermos em tentação. As tentações são as provas a que estamos submetidos. Somos constantemente submetidos a provações de toda espécie. É por meio delas que forjamos o nosso caráter, é superando as provas que nos fortalecemos.

“Não nos deixeis cair em tentação”, ou seja, que não caiamos quando estivermos sendo submetidos a provas, que aguentemos firme as provas da vida, que saibamos usar de nossas forças para superarmos os períodos de provações mais duras.

Sabendo que as provas são inevitáveis, que os problemas fazem parte do cotidiano dos habitantes deste planeta, Jesus nos ensinou a pedir especialmente isso: que nossas forças internas sejam suficientemente mobilizadas a ponto de nos sustentarmos de pé durante as provações, de não cairmos, de superarmos os momentos de adversidades sem nos rebaixarmos.

Esse pedido é, ao mesmo tempo, implicitamente, uma súplica a Deus para que não nos mande provas muito duras, difíceis demais de suportar. Que os problemas, que são inevitáveis e fazem parte da estrutura da vida na Terra, não sejam esmagadores, que não venham todos de uma vez só, para que tenhamos condições físicas, morais e intelectuais para solucioná-los.

“Mas livra-nos do mal”.

Pedimos para não cairmos quando estivermos em tentação, quando estivermos sendo submetidos a provas, mas temos que manter em mente que as provas são necessárias.

Não há outro meio de avançarmos em nosso atual estágio evolutivo. Se de um momento para o outro cessassem as provas, nós ficaríamos estagnados. Sem o estímulo necessário para avançarmos, permaneceríamos onde estamos.

E é para prevenir que isso não aconteça que Jesus nos ensinou esta sétima e última petição: “livrai-nos do mal” – livra-nos do mal de permanecermos estagnados, de fugirmos das provas e nos conformarmos com o estágio em que estamos atualmente.

Não queremos cair quando estivermos em tentação, quando estivermos atravessando uma prova, mas que tenhamos forças para encarar as provas que a Vida nos apresenta e assim nos livrarmos do mal da estagnação evolutiva.

Esta oração que Jesus nos ensinou é totalmente espiritual. Não se refere às coisas materiais. Jesus nos disse que buscássemos o reino de Deus e todas as outras coisas nos seriam dadas por acréscimo (Lucas 12:31). Esta oração é para quem busca o reino de Deus. Se buscarmos o reino de Deus teremos condições mentais de receber naturalmente as outras coisas.

Buscando o reino de Deus nos elevamos vibracionalmente. Com as vibrações elevadas formatamos nossa mente para que crie condições de atrair as outras coisas de que necessitamos em nossa passagem pela matéria. Espiritualmente elevados criamos em nós mesmos condições ideais para mentalizar. E é sobre mentalização o próximo ensinamento de Jesus.

Depois de nos ensinar sobre as coisas do reino de Deus, agora ele nos ensina sobre as demais coisas.

5. Disse-lhes também: Qual de vós terá um amigo, e, se for procurá-lo à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães,
6. Pois que um amigo meu chegou a minha casa, vindo de caminho, e não tenho que apresentar-lhe;
7. Se ele, respondendo de dentro, disser: Não me importunes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para tos dar;
8. Digo-vos que, ainda que não se levante a dar-lhos, por ser seu amigo, levantar-se-á, todavia, por causa da sua importunação, e lhe dará tudo o que houver mister.

Pode parecer estranho alguém bater à porta de um amigo à meia-noite para pedir três pães. Devemos lembrar que naquele tempo não havia comércio como hoje. As mulheres costumavam assar o pão necessário para o dia, então raramente sobrava.

Este que vai pedir os pães recebeu em casa um amigo. Era dever oferecer pousada e refeição ao visitante. O dever de hospitalidade era sagrado para aquele povo. O pecado de Sodoma, que alguns apressados pensam se tratar da homossexualidade, é, na verdade, a falta de hospitalidade. Deus destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra pela sua falta de hospitalidade.

Nós vimos no capítulo anterior que Jesus mandou os 72 discípulos pregar o Evangelho e recomendou a eles que se hospedassem na casa de alguém e que comessem o que lhes oferecessem. Isso demonstra que era um dever do anfitrião oferecer alimento ao hóspede.

Pois este homem recebeu um amigo em casa e não tinha nada a lhe oferecer, então recorreu a outro amigo sem se importar com a hora.

Este outro amigo já estava deitado com os seus filhos. Parece se tratar de uma casa de um só cômodo, e podemos imaginar uma cama muito grande, como era comum naquele tempo, não só entre os israelitas, uma espécie de plataforma em que várias pessoas dormiam juntas.

As portas eram fechadas por dentro com trancas e tramelas, estava escuro, não havia luz elétrica como hoje. Se o dono da casa levantasse para pegar os pães certamente acordaria a todos os que estavam dormindo.

Mas, pela insistência do outro, acha melhor levantar e atendê-lo. Não exatamente por ser seu amigo, mas para evitar um incômodo maior que seria a insistência daquele que pedia. Sabendo do dever de hospitalidade, e que, portanto, o homem não desistiria dos pães enquanto não fosse atendido, ele resolve atendê-lo.

Essa parábola é uma lição clara acerca da mentalização. Precisamos mentalizar com a mesma insistência que o homem teve para conseguir os pães. Não basta desejarmos. É preciso querermos com todas as nossas forças, e mentalizarmos aquilo que queremos, e insistirmos incansavelmente.

Existem inúmeros livros que tratam do assunto, mas poucos confessam que são baseados nessas palavras que Jesus nos deixou.

O amigo que não quer ser incomodado é como o desejo que não é atendido de imediato. Não há condições em nosso subconsciente para que o pedido seja satisfeito de imediato.

André Luiz afirma que o nosso subconsciente é a soma de todas as nossas experiências; de todas as nossas reencarnações e dos intervalos entre elas. Tudo o que já sentimos, pensamos, falamos e fizemos está registrado lá.

É o nosso subconsciente que determina o que somos, pois ele é o repositório de tudo o que pensamos, e nós somos o que pensamos. Nas palavras de Emmanuel, “somos o que decidimos; possuímos o que desejamos; estamos onde preferimos; e encontramos a vitória, a derrota ou a estagnação conforme imaginamos”.

Se quisermos realizar uma mudança mental, se quisermos adquirir novo modo de encarar as coisas, outra maneira de nos portarmos frente aos problemas, outro tipo de reação às nossas fraquezas, se quisermos, enfim, mudar o nosso padrão de pensamentos, devemos reprogramar o nosso subconsciente. É isso que Jesus diz na parábola.

Mesmo que o amigo que foi importunado (que representa o subconsciente) não atenda de imediato, por não estar acostumado a isso, por não querer importunar os seus filhos (que são os pensamentos antigos – os filhos do subconsciente são os pensamentos antigos, costumeiros, os pensamentos viciados de sempre), se insistirmos ele atenderá.

O pedido feito ao amigo (o pedido é a mentalização) deve ser mais forte, mais vivo, mais insistente que a vontade do subconsciente de permanecer como está, de permanecer com os dados a que está acostumado.

9. E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á;
10. Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á.

Pedimos, como um desejo que queremos ver satisfeito; buscamos, através do nosso esforço pessoal para a conquista; e batemos à porta com insistência para que sejamos atendidos.

Isso pode ser visto como modo de conquistar coisas materiais. O progresso material faz parte do nosso processo de aprendizado. Jesus nos ensinou o Pai Nosso, que é todo espiritual, e nos ensina a mentalização para conquistarmos o que for necessário para a nossa subsistência e progresso.

Mas o sentido mais profundo deste ensinamento se refere à mudança no padrão de pensamentos. Está ao nosso alcance a modificação do modo de pensar. Só depende de nós mesmos a alteração da maneira como percebemos as coisas, as pessoas, a vida, o mundo.

Para que a Vida nos seja generosa e mais amena, precisamos mentalizar positivamente. A maneira torta e atravessada que muitos têm de receber as coisas que a vida oferece, a forma caolha de ver as pessoas e as situações atrai cada vez mais dificuldades.

11. E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?
12. Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?
13. Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?

 Recebemos da Vida o que pensamos dela. Temos que ter muito cuidado, todos os dias de nossas vidas, com o que passa por nossas cabeças. A última recomendação de Jesus aos seus discípulos, antes de ser crucificado, foi para vigiar e orar.

O que pensamos, o que mentalizamos determina o tipo de vida que teremos.

Quantas pessoas passam os dias reclamando de tudo e de todos, se queixando da vida, do mundo, das pessoas, dos preços, do governo, dos políticos, das doenças, do trabalho, do marido, dos filhos, do cachorro, do gato?

Como essas pessoas querem que algo de bom lhes aconteça se tudo o que elas mentalizam é negativo?

Somos os responsáveis pelos nossos próprios erros, e a maior parte dos nossos erros começa nos pensamentos negativos. Colhemos o que plantamos, sempre.

Pai Nosso ensinamento

Jesus termina este ensinamento afirmando que Deus nos concede o apoio dos bons espíritos aos que pedem a sua proteção. Espírito santo, aqui, novamente, no texto grego, é escrito sem artigo. Trata-se, então, de “um” espírito santo, de um espírito dedicado a Deus.

Se nós, seres falíveis, damos coisas boas aos nossos filhos, Deus, que é pai de todos, nos concede um espírito bom para nos guiar pelo caminho.

Estes ensinamentos, se forem seguidos com fé e persistência, são suficientes para transformarem a vida de qualquer pessoa.

Do:  Espírito imortal

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